Matt Gaetz, uma estrela em ascensão no Partido Republicano conhecido por seu estilo de vida exuberante e declarações polêmicas, pode agora estar envolvido em um escândalo sexual com potencial de acabar com sua carreira, inclusive na esfera jurídica, e afetar o legado político do ex-presidente Donald Trump.

Gaetz-gate, como está sendo chamado o escândalo, teve início na semana passada após surgirem relatos de que o congressista da Flórida em terceiro mandato pode ter tido relações sexuais com uma garota de 17 anos. Desde então, a história se transformou em um caso que envolve “sugar daddies” (homens que se relacionam com mulheres mais jovens por dinheiro e presentes), extorsão, fraude e tráfico sexual.

Há também relatos de que Gaetz teria mostrado fotos de mulheres nuas em seu telefone a legisladores no plenário da Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira), se gabando de façanhas sexuais.

O deputado negou veementemente todas as acusações e refutou os pedidos para renunciar ao cargo.

Gaetz, um dos defensores mais leais de Donald Trump, estando ao lado do ex-presidente em todos os seus escândalos e controvérsias, agora enfrenta uma crise política existencial própria.

 

Quem é Matt Gaetz?

Gaetz foi eleito pela primeira vez para o Congresso dos Estados Unidos em 2016, representando um distrito no norte da Flórida – uma região politicamente mais parecida com o vizinho conservador Alabama do que o extremo sul mais multicultural do Estado.

Antes disso, ele passou seis anos como legislador estadual da Flórida.

Membros mais recentes da Câmara dos Representantes geralmente atuam em relativo anonimato, a menos que tenham conseguido atrair os holofotes da mídia, como a democrata Alexandria Ocasio-Cortez, ou que ostentem conexões políticas influentes.

Gaetz tinha as duas coisas, e as usou para se tornar o rosto de uma nova geração de políticos republicanos.

O congressista de 38 anos e língua afiada tem sido convidado frequente nos canais conservadores de TV a cabo nos Estados Unidos. Foram 346 aparições em dias úteis desde agosto de 2017, de acordo com o grupo de vigilância liberal Media Matters.

Ao assumir o cargo no Congresso, ele rapidamente ampliou seu público e chamou a atenção do mais poderoso entre os consumidores de conteúdo de mídia conservadora: Donald Trump.

Gaetz tornou-se um orador “de aquecimento”, antecedendo Trump sempre que o então presidente fazia campanha na Flórida durante sua candidatura à reeleição em 2020. Ele conheceu sua noiva, Ginger Luckey, de 26 anos, enquanto visitava o resort Mar-a-Lago de Trump. Ele postou no Twitter selfies tiradas no Força Aérea Um, a aeronave presidencial americana.

O congressista da Flórida também ganhou notoriedade política com uma variedade de truques de publicidade viral, incluindo o uso de uma máscara de gás no plenário da Câmara dos Representantes durante o debate sobre o primeiro projeto de lei de ajuda à pandemia de coronavírus em março de 2020.

Ele também se juntou a um grupo de republicanos do Congresso que limitou testemunhas no primeiro impeachment de Trump em 2019.

Em janeiro, Gaetz viajou para o Estado de Wyoming para realizar um comício contra Liz Cheney, a líder congressional republicana que denunciou Trump e votou pelo impeachment do presidente após o violento ataque de apoiadores de Trump ao Capitólio, sede do Congresso americano, em 6 de janeiro de 2021.

Gaetz também foi o centro de histórias mais surpreendentes, como uma revelação no ano passado de que vive com um “filho” não biológico e não adotado formalmente de 19 anos: o imigrante cubano Nestor Galban, que o conheceu quando tinha 12 anos e quando Gaetz namorava sua irmã mais velha.

 

Quais são as acusações contra Gaetz?

Gaetz, conforme revelado em primeira mão pelo jornal The New York Times, está sendo investigado pelo Departamento de Justiça dos EUA sob suspeita de ter tido relação sexual com uma garota de 17 anos e pagar para ela cruzar fronteiras estaduais. O tráfico interestadual de crianças menores de idade para sexo é um crime federal nos EUA.

Parece que a investigação, que supostamente teve a aprovação do procurador-geral nomeado por Trump, William Barr, é parte de uma ampla apuração sobre tráfico sexual que levou ao indiciamento de Joel Greenberg, um político da Flórida que é amigo de Gaetz.

Ele foi preso em junho passado e posteriormente acusado de diversos crimes, incluindo perseguição, fraude, suborno, peculato, roubo de identidade, falsificação e tráfico sexual.

De acordo com jornal americano, esta última investigação se concentra em suspeitas de que Greenberg e Gaetz procuraram mulheres em sites para “sugar daddies”, em que muitas vezes mulheres encontram homens que oferecem dinheiro e presentes em troca de sexo.

“O New York Times analisou os recibos do Cash App, um aplicativo de pagamentos móveis, e do Apple Pay que mostram os pagamentos de Gaetz e de Greenberg para uma das mulheres, e um pagamento de Greenberg para uma segunda”, afirma o jornal. “As mulheres disseram a amigos que os pagamentos eram por sexo com os dois homens, de acordo com duas pessoas próximas.”

Greenberg e Gaetz também foram gravados por câmeras de segurança há vários anos entrando em um escritório fechado de cobradores de impostos em um fim de semana, de acordo com informações obtidas pelo jornal Orlando Sentinel. A filmagem também mostra Greenberg examinando uma cesta de carteiras de motorista devolvidas que seriam descartadas.

“Uma investigação aponta que Greenberg usou seu acesso como autoridade eleita para buscar informações sobre uma garota entre 14 e 17 anos em um banco de dados estadual, a fim de ‘produzir um documento de identificação falso e facilitar seus esforços para se envolver em negócios comerciais com atos sexuais'”, afirma o Orlando Sentinel.

Greenberg negou as acusações.

A amizade de Greenberg e Gaetz está, no mínimo, se provando politicamente prejudicial. Mas pode acabar na Justiça também.

 

O que Gaetz tem dito?

Gaetz negou ter relações sexuais com meninas menores de idade, ou pagado mulheres para fazer sexo ou mesmo visitado sites de “sugar daddies”.

Ele disse que foi “generoso” com as namoradas no passado, mas que nunca se envolveu em conduta ilegal.

Na manhã de segunda-feira (05/04), o jornal conservador Washington Examiner publicou uma coluna de opinião de Gaetz traçando paralelos com o que ele caracterizou como a perseguição política injustificada a outras figuras de seu espectro político, como Trump, o juiz da Suprema Corte Brett Kavanaugh e o senador John McCain.

“Os ciclos de escândalos de Washington são previsíveis, e o sexo é especialmente potente na política”, escreve ele. “Deixe-me primeiro lembrar a todos que sou um representante no Congresso, não um monge, e certamente não um criminoso.”

Durante uma aparição polêmica no programa de entrevistas da Fox News de Tucker Carlson na semana passada, Gaetz alegou que a investigação do Departamento de Justiça estava, na verdade, relacionada a uma tentativa de um ex-funcionário do governo de extorquir dinheiro de sua família.

“Em 16 de março, meu pai recebeu uma mensagem de texto exigindo uma reunião, na qual uma pessoa exigia US$ 25 milhões (ou R$ 141 milhões) em troca de fazer desaparecer terríveis acusações de tráfico sexual contra mim”, disse Gaetz.

David McGee, ex-funcionário do Departamento de Justiça apontado por Gaetz nessa acusação, nega que isso tenha ocorrido. O Washington Post relata que o órgão está conduzindo uma investigação separada para saber se uma tentativa de entrar em contato com o pai de Gaetz e oferecer ajuda jurídica em troca de ajuda para libertar um americano detido no Irã pode configurar extorsão.

Gaetz também disse a Carlson que uma ex-namorada sua, que o próprio apresentador da Fox inclusive conheceu, foi pressionada pelo FBI a acusar o congressista de troca de favores políticos por doações em dinheiro. O congressista, no entanto, não apresentou detalhes sobre esse episódio.

Por outro lado, Luke Ball, assessor de Gaetz de longa data, porta-voz e diretor de comunicações de seu gabinete no Congresso, renunciou ao cargo na sexta-feira

. “O gabinete do congressista Matt Gaetz e Luke Ball concordaram que seria melhor se separar”, informou o chefe de gabinete de Gaetz ao jornal New York Times. “Agradecemos a ele por seu tempo em nosso escritório e desejamos tudo de bom no futuro.”

Antes que a história obre a investigação do Departamento de Justiça estourasse, o próprio Gaetz estava considerando renunciar do Congresso para aceitar um emprego como comentarista na conservadora rede de TV a cabo Newsmax.

 

O que isso significa para Trump?

Dado que Gaetz foi um dos defensores mais ferozes de Trump, toda a controvérsia se tornou, pelo menos em parte, a mais recente batalha indireta sobre o legado do ex-presidente e sua influência na política americana.

Com Trump fora do cargo, políticos como Gaetz tornaram-se os herdeiros políticos dele, testando se a retórica conservadora de confronto, a inclinação para a guerra cultural e o populismo de direita podem ser um modelo de longo prazo para o sucesso eleitoral.

Gaetz certamente seguiu o roteiro de Trump ao se defender contra essas acusações. Ele não admitiu nada e fez diversas acusações contra seus críticos e detratores.

Em seu artigo no Washington Examiner, Gaetz ecoa Trump: “Eles não estão vindo atrás de mim, eles estão vindo atrás de você – estou apenas no caminho”.

Resta saber se a defesa adotada por Trump funcionará para alguém sem o sobrenome Trump.

Alguns democratas já pediram que ele fosse derrubado de sua cadeira no Comitê Judiciário da Câmara. A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, disse que concorda, mas se as investigações concluírem que as acusações são verdadeiras.

O líder republicano da Câmara, Kevin McCarthy, disse que as acusações são “graves” e que planejava falar com Gaetz sobre o tema.

Pelo menos até agora, Trump permaneceu em silêncio sobre as acusações de Gaetz, conforme foi orientado por aliados. Se o ex-presidente entrar no jogo, seja por meio de comunicados à imprensa ou em uma entrevista a um canal de TV conservador, isso pode reforçar a defesa de Gaetz ou desferir um golpe politicamente fatal.

No final, porém, a última palavra sobre o futuro de Gaetz está mesmo com os promotores federais que o investigam.

 

Fonte: UOL
Foto: Getty Images via BBC