Cardeal da resistência, da periferia, do povo da rua, dos operários, dos direitos humanos ou, simplesmente, o cardeal da esperança. Assim era descrito dom Paulo Evaristo Arns, cujo nascimento completa cem anos hoje, em 14 de setembro. Ele viveu até os 95 anos, morrendo em dezembro de 2016.

Contrariando interesses da Igreja Católica, fez sua trajetória ao lado dos socialmente discriminados e dos politicamente perseguidos, tornando-se uma das mais relevantes lideranças a contestar a ditadura militar no Brasil. Além disso, denunciou crimes de tortura e combateu a injustiça que condenava à miséria populações vulneráveis.

“O Brasil e o mundo celebram essa data de um ser humano que passou pelas nossas vidas deixando marcas que não desaparecerão nunca. Dom Paulo encarnou na sua atuação pastoral uma verdadeira revolução inspirada na Teologia da Libertação, ao mesmo tempo em que, diferentemente de outras figuras da igreja, assumiu de pronto a defesa dos que lutavam pela democracia e pelos mais pobres. Continha a dimensão política da fé”, relata a ex-prefeita de São Paulo e deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP).

A integridade do religioso, que ocupou os mais altos cargos da igreja, incluindo o posto de arcebispo de São Paulo, permitia embates com os militares numa época em que desafiá-los poderia ter consequências imprevisíveis.

Esteve em centros de tortura reivindicando a liberdade de presos políticos, revelou em suas igrejas documentos relatando violações cometidas pelo Estado e chegou a reunir-se, em 1974, com o general Golbery do Couto e Silva para apresentar um dossiê sobre 22 desaparecidos, junto a familiares das vítimas.

A criação da Comissão Justiça e Paz, responsável por proteger perseguidos, inclusive de regimes autoritários de outros países da região, e o projeto Brasil Nunca Mais, realizado em sigilo com a finalidade de documentar crimes da ditadura, são apontados como eventos centrais para debilitar o regime diante da opinião pública, nacional e internacionalmente.

Igualmente importantes foram o histórico ato ecumênico na Catedral da Sé em memória ao jornalista Vladimir Herzog e a Celebração da Esperança, homenageando o estudante Alexandre Vannucchi Leme —ambos mortos por agentes da repressão na década de 1970.

 

Estranhamento com a elite

Em todos esses episódios, a participação de dom Paulo foi decisiva. “Hoje, talvez a gente ainda não tenha essa noção do quanto dom Paulo foi importante e do quanto a nossa democracia hoje deve a ele. Ele realmente é uma personalidade fundamental da igreja no século 20, talvez o maior de todos os personagens na América Latina”, afirma a biógrafa Evanize Sidow em relato para o site Memórias da Ditadura.

As ações no terreno social também motivaram um estranhamento entre o arcebispo e setores da elite. Depois de assumir a diocese de São Paulo, vendeu o palácio episcopal: com os US$ 5 milhões arrecadados, investiu na compra de lotes de terrenos e na construção de milhares de casas na periferia paulista, enquanto, para o campo, defendia a pauta da reforma agrária.

Criticava a inflação que corroía o salário da população e a invisibilidade das pessoas em situação de rua, segmento junto ao qual desenvolveu uma série de iniciativas, entre as quais a Catedral de Oração do Povo de Rua.

“Quando o Brasil tiver justiça social, todo mundo vai decidir por uma religião bem fundamentada e que responda aos anseios sabendo usar uma linguagem moderna para se comunicar, assim como Jesus soube se comunicar. Uma nação precisa de solidariedade, verdade e liberdade. Isso deve nos mover no tempo novo e lançar o país para frente”, projetava em uma entrevista concedida na década de 1990.

O religioso enfrentou o preconceito de parcelas reacionárias incapazes de compreender a articulação de um líder que recebia o então presidente dos EUA Jimmy Carter em sua visita ao Brasil e trocava correspondências com o líder da revolução cubana, Fidel Castro.

A defesa da liberdade para presos que haviam cometido pequenos furtos em busca de alimentos, sua adesão aos movimentos grevistas do ABC paulista, quando se aproximou do ex-presidente Lula (PT), e a habilidade para fomentar o interculturalismo entre as religiões foram outros temas espinhosos enfrentados durante diferentes períodos de sua vida.

“Nosso compromisso é seguir seu legado, lutar pelos direitos humanos, pela democracia que está em risco novamente em um país que está despencando pelo precipício na mão de pessoas absolutamente inconsequentes, como o presidente, que se distrai andando de moto enquanto as pessoas morrem”, afirma José Carlos Dias, presidente da Comissão Arns, organização sem fins lucrativos de defesa dos direitos civis.

 

Missa na catedral da Sé homenageia Dom Paulo

Uma missa na catedral da Sé, na região central da capital paulista, homenageou Dom Paulo Evaristo Arns no dia do centenário de seu nascimento. A celebração religiosa marca o início das comemorações em homenagem a Arns organizada pela Arquidiocese de São Paulo.

A celebração eucarística foi presidida pelo cardeal Odílo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, com a participação de representantes da Igreja, autoridades públicas e de outras instituições religiosas, sociais e culturais.

Antes do início da missa, Dom Paulo Evaristo Arns foi lembrado como seguidor de São Francisco de Assis, por seu trabalho de combater os abusos da ditadura e em defesa dos mais pobres, além do cuidado das crianças através da pastoral da Criança, projeto confiado a sua irmã Zilda Arns.

“A defesa dos direitos humanos era um imperativo divino que fez do arcebispo cardeal. Ele vendeu o palácio episcopal, foi morar em uma casa humilde e com o dinheiro instalou comunidades eclesiais onde a humildade do povo era iluminada. Não faltaram tentativas de calá-lo. Calaram seu jornal, emudeceram sua rádio, mas não se cala o evangelho. Ele nunca deixou seu trabalho, fez do púlpito dessa catedral uma tribuna que defendia os pobres. Além disso, ele evangelizou através de uma coleção preciosa de artigos na imprensa e 57 livros”, afirmou Scherer.

O cardeal também lembrou o legado deixado por Arns.

“Ele criou casas de acolhimentos para doentes de Aids, cuidou de crianças na pastoral da Criança, confiada a sua irmã Zilda Arns, criou um vicariato para moradores de rua. Recebeu prêmios e doutorados honoris causa dentro e fora do Brasil. Sem se deixar levar por tantas honrarias, continuou seu serviço a deus e à Igreja e continuou a construir centros comunitários na periferia. Que essa celebração não seja só para olhar para trás, mas para tomar consciência do magnífico legado que ele deixou.”

Celebração eucarística foi presidida pelo cardeal Odílo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, com a participação de representantes da Igreja, autoridades públicas e de outras instituições religiosas, sociais e culturais. — Foto: Reprodução
Celebração eucarística foi presidida pelo cardeal Odílo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, com a participação de representantes da Igreja, autoridades públicas e de outras instituições religiosas, sociais e culturais. — Foto: Reprodução

 

Fonte: UOL/G1.com
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil