O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) reiterou críticas, ontem, ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e voltou a dizer que a prova está mudando aos poucos. O chefe do Executivo ainda relativizou a ditadura militar brasileira (1964-1985), que deixou 434 mortos ou desaparecidos. “O que eu quero com isso? Não é discutir o período militar. É começar a história do zero”, afirmou.

Durante evento sobre escolas cívico-militares, no Palácio do Planalto, Bolsonaro voltou ao assunto e negou interferência do governo no exame.

“Acusaram a mim e ao ministro [da Educação] de ter interferido na prova do Enem. Se eu pudesse interferir, pode ter certeza, a prova estaria marcada para sempre, com questões objetivas, de fato, e não com questões ideológicas, como ainda vimos nessa prova”, reclamou o mandatário.

Bolsonaro disse que gostaria de perguntar, no Enem, quem foi o primeiro general que comandou o Brasil em 1964 — ou seja, após o golpe militar. “Não vou discutir se foi ou se não foi ditadura militar. Mas eu queria colocar uma questão, se pudesse: quem foi o primeiro general que assumiu em 1964? Foi o Castello Branco. Em que data? Eu queria perguntar. Duvido que a imprensa acertaria.”

O presidente também disse que Castello Branco foi escolhido presidente da República “à luz da Constituição”, sem considerar que houve uma tomada de poder ilegítima em 1964, e atacou a anulação, pelo Congresso, da sessão legislativa que depôs o ex-presidente João Goulart e abriu espaço para a ditadura. A decisão foi tomada em 2013.

A ditadura militar brasileira deixou 434 mortos ou desaparecidos em 21 anos, de acordo com levantamento da CNV (Comissão Nacional da Verdade). Além disso, a ONG Human Rights Watch calcula que 20 mil pessoas tenham sido torturadas durante o período.

O primeiro dia do Enem aconteceu no domingo (21). Os candidatos precisam responder 90 perguntas das provas de linguagens e ciências humanas, além de produzir uma redação. No próximo domingo (28), é o segundo dia, com matemática e ciências biológicas.

Na avaliação de professores ouvidos pelo UOL, questões sociais apareceram, mas de forma indireta na prova. População indígena, racismo, e a música “Admirável Gado Novo” foram alguns temas que surgiram nas questões do primeiro dia do Enem.

No entanto, nenhuma pergunta falou sobre a ditadura militar no país. Desde o início do governo Bolsonaro, o período histórico não apareceu mais apareceu na prova. O jornal Folha de S.Paulo revelou na semana passada que o presidente pediu para que houvesse questões que tratassem o golpe militar de 1964 como uma revolução.

Às vésperas do exame, além de denúncias de supostas interferências no Enem veiculadas na imprensa, o próprio presidente disse que a prova começa a ter “a cara do governo”. O ministro da Educação, Milton Ribeiro, garantiu que “não houve interferência do governo” na montagem da prova.

 

Fonte: UOL
Foto: Anderson Riedel/PR